166 Títulos de Nossa Senhora

NOSSA SENHORA DO LEITE

A Virgem Santíssima foi homenageada pelos seus devotos em todas as fases de sua maternidade divina. Temos assim as invocações de Nossa Senhora da Anunciação, da Encarnação, da Expectação ou do Ó, do Parto, além de diversas representações de Maria com o Menino Jesus no presépio ou no colo. Evidentemente deveria surgir o titulo de Senhora da Lactação, pois foi com o seu leite que o Filho de Deus se alimentou nos primeiros meses de vida humana.


Nossa Senhora do Leite

Qual não deve ter sido a emoção de Maria ao ver o seu Senhor, o Cristo, receber dela, simples criatura, o leite que iria desenvolver o Corpo, que Ele se dignou tomar, permitindo-lhe viver, crescer e tornar-se um homem...

As mais antigas imagens da Virgem amamentando o seu Divino Filho datam do final da Idade Média, quando se observa na arte a humanização dos temas religiosos e a tendência cada vez maior de ver em Maria mais a Mãe do que a Rainha do Céu em majestade, como acontecera nos períodos românico e bizantino. Geralmente, na época do gótico tardio, as figuras da Mãe de Deus, dando de mamar a Jesus, se enquadram nas cenas de descanso da fuga para o Egito, como se pode observar no retábulo da igreja de São Pedro, em Hamburgo, obra do mestre Bertram, da escola renana. Como o estilo ogival não deixava espaço nos templos para as pinturas murais, começaram a aparecer os quadros de cavalete, sendo um dos primeiros deste tipo o que representa a Virgem Maria entre São Pedro e São Paulo, alimentando seu filho ao seio.

A partir do Renascimento este assunto e abordado também na pintura italiana e temos como exemplos: a Madona Litta, que se encontra no museu de Leningrado, atribuída ao grande Leonardo da Vinci; e a Madona da Almofada Verde, de Andrea solario (século XV), que representa o Menino Deus sendo alimentado por sua Mãe, deitado sobre uma almofada daquela cor.

Em Portugal existem várias obras artísticas, sobre este tema, destacando-se a Virgem do Leite, da autoria de Frei Carlos, monge flamengo que viveu e morreu em Évora, o qual transmitiu à sua obra um enorme sentido de carinho e delicadeza; e o quadro da pintora Josefa de Óbidos no convento de Bussaco. Este último é muito cultuado pela população, pois as mães que não têm leite costumam oferecer, como ex-votos, retratos de seus filhos e seios de cera, que podem ser vistos em grande número na sacristia do mosteiro.

Este culto continuou no Brasil, havendo diversas imagens, tanto em pintura como escultura, de Maria amamentando o Divino Infante. A mais bela, contudo, é a efígie barroca de Nossa Senhora da Lactação existente na igreja do Carmo, em Belém do Pará. Ela representa a Mãe Puríssima, sem véu nem coroa, com os longos cabelos caindo sobre os ombros, tendo no braço esquerdo o Menino Jesus e apertando o seio com a mão direita, num admirável gesto de ternura e amor maternal.

A devoção à Virgem do Leite parece ter tido início na Palestina, onde Jesus Cristo passou a sua vida terrena até morrer numa cruz para salvar a humanidade. Perto de Belém, onde Ele nasceu, encontra-se uma gruta muito venerada pelo povo do lugar e visitada por inúmeros devotos e turistas, dentro da qual se pode ver uma pedra muito alva, já gasta de tanto ter sido raspada. As mães que estão amamentando usam o pó desta rocha misturado com água, para aumentar o seu leite ou para conservá-lo enquan to suas crianças necessitam de alimentação materna. Diz a tradição que, quando a Sagrada Família se retirou para o Egito, parou junto à lapa para descansar, Maria aproveitou então para amamentar seu Divino Filho e um pouco de leite espirrou sobre a pedra, que se tornou toda branca. Daí a origem da devoção popular.

O tema da amamentação de Jesus aparece também no lendário brasileiro. Contam que Nossa Senhora estava à beira-mar, cansada sob o sol causticante de verão, e precisava voltar para o seu rancho, onde o Menino Deus a esperava para mamar. Como ela não sabia as horas e com certeza Ele estava chorando de fome, perguntou a um linguado, que se aproximava da terra para fazer a sesta:

"Linguado, podes me dizer que horas são?"

O peixinho, aborrecido por ela vir perturbar a sua digestão, cheio de maldade arremedou-a entortando a boca. A Virgem, então, diante daquela ruindade, amaldiçoou-o dizendo que ficasse como estava ao imitá-la. E desde aquela ocasião o linguado ficou com a boca torta...

Tanto as lendas como as obras de arte mostram o carinho da população para com a Mãe de Deus e a crença de que, assim como o seu leite desenvolveu o corpo físico de Jesus, a sua graça fortalecerá a nossa fé para que possamos cumprir neste mundo a nossa missão de filhos de Deus.

Fonte:

Transcrito do livro "Invocações da Virgem Maria no Brasil", de Nilza Botelho Megale, Ed. Vozes, 1998, pp. 252-255.